Shiu. . . Não digas nada.
toca-me apenas com os teus lábios e mata-me o silêncio.
ouvi-te segredares-me ao ouvido amo-te
e acordei.
Os velhos encharcam-se pela tarde fora e juntam-se todos na mesa pequena a um canto, a jogar a sueca, matreiros. -E que não chateiem. Os pais juntam-se à sombra das uvas que se enrolam nos arames suspensos do pátio e relembram o tempo em que eram filhos. Os tempos da escola e as brincadeiras, lembram-se uns aos outros que eram filhos e que tudo era diferente. E os filhos, muitos, sem sequer se conhecerem, brincam e correm às gargalhadas por entre as pernas dos pais. Caem e levantam-se sozinhos como nunca, com as bocas cheias de doce e as mãos cheias de terra. E os joelhos em sangue.
São capas negras, bordadas de vida, às cores. Remendos.
Eu sou o anjo do desespero.
Das minhas mãos distribuo a embriaguês,
a estupefacção,
o esquecimento, gozo e tormento dos corpos.
Meu discurso é o silêncio, meu canto o grito.
À sombra das minhas asas mora o terror.
Minha esperança é o último suspiro.
Minha esperança é a primeira batalha.
Eu sou a faca com que o morto arromba o seu caixão.
Eu sou aquele que será.
Meu descolar é a sublevação,
meu céu o abismo de amanhã.
[Heiner Müller]