domingo, 20 de junho de 2010

Tradição

O cheiro do porco pendurado no meio da sala é intenso. Passa por baixo da porta e entra pelo quarto, agressivo. As gotas de sangue, que vão caindo no alguidar meio cheio bem por baixo do porco, rasgam o silêncio da noite.
Durante o dia era festa, aquelas festas das aldeias, onde se junta toda a gente e abunda a comida, o vinho, a doçaria e a água-pé. Festas de saudade e risos, que tanta vez sobe o grau à cabeça e se lava a roupa suja de décadas.
Os velhos encharcam-se pela tarde fora e juntam-se todos na mesa pequena a um canto, a jogar a sueca, matreiros. -E que não chateiem. Os pais juntam-se à sombra das uvas que se enrolam nos arames suspensos do pátio e relembram o tempo em que eram filhos. Os tempos da escola e as brincadeiras, lembram-se uns aos outros que eram filhos e que tudo era diferente. E os filhos, muitos, sem sequer se conhecerem, brincam e correm às gargalhadas por entre as pernas dos pais. Caem e levantam-se sozinhos como nunca, com as bocas cheias de doce e as mãos cheias de terra. E os joelhos em sangue.
-Sangue.
O alguidar vai enchendo gota a gota com o sangue que se esvai do porco preso ao tecto, de cabeça para baixo à moda do enforcado. Misturam-se os cheiros; a fétida morte, o suor e os hálitos que se embriagam pelas horas, o perfume e colónia barata que se apagam da pele com o fumo dos grelhados no carvão e a gordura das sardinhas. O vinho entornado ensopa na toalha e tinge a mesa de carmino. E as gargalhadas embevecidas aumentam, os olhos vão ficando amarelados e os corpos cansados. As crianças encostam-se num qualquer canto, imundas, suadas de inocência, e adormecem. Os queixos dos velhos já descaem pelo peito, de cabeças tombadas, sentados nos sofás com as bengalas encostadas às pernas. Os outros perdem-se na noite, nas memórias de noites semelhantes que passaram quando eram as crianças que corriam. Memórias de outras festas quando eram verdadeiras e a vida permitia. -Quando não havia mágoas e o sangue era outro.
Encheu o alguidar, secou o porco pendurado. As barrigas estão cheias. Está tudo pronto para acabar a festa.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O mundo não é meu





Mar de gente. Ondulação humana. São rochas marinhas. São espuma. O mar revolto e sem sentido, sem mexer, sem nada. Ondula porque sim.
Velhas sentadas no lancil e eu no topo de um monte de pedras soltas da calçada, por calcetar, a ver do alto.
São capas negras, bordadas de vida, às cores. Remendos.
São cegos na multidão que nem sabem quando aclamar. Não sabem quando parar. Sabem apenas porque sim. Cegos que se atropelam e arrastam e se escalam para ver o que não vêem. E não vêem. Todos olham mas ninguém vê.

Chuva de Maio. Primavera invisível. Um verão gelado, vento de leste e a chuva que lá está sem cair.
Vestem meias roupas: calções e camisinhas; saias curtas e decotes; alças e carne; e a tez pálida. E depois tapam-se. Tapam-se por cima das meias roupas, com pele defunta e cobertores da moda e falsos risos e sorrisos e hipocrisias. No fim choram os crocodilos na passerelle de vaidades.
Criticam o oxigénio, como se não respirassem. Aceleram de fumo preto; escape e borracha queimada. Gritam e assobiam ao mar è espera de resposta. Coitados… nem o eco lhes responde.
E pisam o jardim ao subir. Enterram os saltos altos na erva e sobem aos tropeços. E quando chegam ao cimo, ajeitam as calças, que são demais apertadas, 2 números abaixo mas fica bem. Não respira, mas fica bem. Dizem.
Depois descem a coxear. Mancos e a doer os pés. Fica bem.

Todos sabem tudo. Mais que os outros, sabem tudo. Todos sabem tudo enquanto os outros não sabem nada. E passeiam as saias curtas de longas pernas arrepiadas. Vão subindo, mas descem a coxear, todos.
Eles sabem tudo e os outros não sabem nada. É um mar de gente na rebentação. E eu a espuma que a saltar no rochedo. É um mar de gente seca. E é no mar seco que ando molhado. Um dos outros que nada sabem.
Sei do beijo. Sei que ignoram a voz que ecoa nas paredes de pedra que me rodeia. Não grito mas também não respiro. Estou apenas. Sou. Sorrio.
O mundo não é meu.


sábado, 15 de maio de 2010

Apetece-me escrever... Apenas



Apetece-me escrever...Apenas.


Cresce a necessidade de escrever, apenas pelo prazer de escrever. Egocentrismo talvez... talvez não. Talvez Arte. Talvez gosto. Talvez tudo. Nada.

Os dedos frios insistem chorar na folha gritos mudos da minha alma. Por vezes de tudo. Por vezes de nada. Por vezes, apenas.

Pequenos sonhos de ver as palavras, choradas por estes dedos desfigurados, impressas nas folhas que os olhos desconhecidos de quem quiser possam ler e depois, fecharem o livro e pousá-lo, adormecido, como se fosse eu que repousasse ali, e sussurrasse baixinho as lágrimas que me correram pelos dedos.

Apetece-me escrever. Cresce o gosto de escrever pelo escrever. Gosto de ler, de criar. A necessidade.

Apetece-me escrever... Apenas.

sábado, 3 de abril de 2010

O felino




O felino passeava pelos quartos à noite. No escuro, esgueirava-se pelas portas entreabertas e espreitava a ausência dos corpos pelas esquinas. Via o saracotear das sombras ao choro do espanta espíritos que pintava o silêncio.
Pela janela avistou os navios atracados, presos ao luar. Inertes, como estátuas de pedra e cal numa qualquer praça vazia de tudo. Como um vasto desértico istmo, que separa a vista do sonho. Sem horizonte. Pensava como seria para lá do vidro que o prendia.
Abriu-se a porta que nunca esteve fechada. A tépida brisa deslizou pelos mosaicos, rebolou-se pelas paredes sem cor e afagou-lhe o sedoso pêlo prateado. Soltou um ronronar mudo ao sentir aquele cobertor de carícias. Lambeu-se e provou aquela melosa oressa que lhe adoçou a língua e lhe aqueceu a garganta. Espreguiçou-se em deleite, e seguiu.
Vagueou pelas ruas sem destino. A humidade pintava as paredes dos edifícios e as vitrinas embaciadas tinham começado a suar. As gotas que escorriam descobrindo os manequins despidos em poses naturais que espreitavam para lá do vidro sem qualquer expressão.
Chegou ao porto. Aquela necrópole de correntes ferrugentas mergulhadas no mar morto, negro. O mar não cantava. Nada mexia. Não havia ondas. Os navios choravam vermelho e em vez de serem gaivotas, nos mastros pousavam corvos. E a lua começava a fugir, mergulhando no mar vazio. Um sol alaranjado espreitava por entre pára-raios que arranhavam os céus. O véu de minúsculas gotículas começava a pousar na calçada enegrecida. O que se escondia nas sombras de prata revelava a panóplia de cores que acordava aos poucos. A cidade estava a acordar. Nasciam vapores das chaminés e das grelhas no chão. O som dos saltos altos a bater no chão multiplicava. Passos lentos e rápidos. Sapatos e mais sapatos. E pernas de um lado para o outro. Uma mistura de perfume barato, suor, café e mais uma dezena de odores que se misturavam no fumo dos escapes. Do nada apareceram o rugir dos motores, as buzinas, os gritos. Barulho.
O coração batia mais rápido que nunca. Tudo mexia. Tudo passava e gritava. Debaixo de um contentor que fedia a comida podre e pingava pelo rebordo um molho esverdeado imperceptível e mucoso, o gato encostava-se ao canto mais afastado das sapatadas violentas no passeio. Escondido, o seu corpo tremia. A cada piscadela, vertia uma lágrima dos olhos. Um e outro pêlo soltava-se e desaparecia pela rua a flutuar. Fechou os olhos e lembrou-se de como era estar na sua poltrona almofadada, na sala, e passear pelo silêncio de casa, roçar-se pelas esquinas das paredes e, sorrateiramente, enfiar-se por baixo dos lençóis e deitar-se aos pés da cama. Segurou-se a essa imagem e esperou.
Quando caiu de novo a noite, e assim que os sapatos se afastavam e os passos acalmavam. Quando os motores e as buzinas se calavam. As vozes iam sumindo, as portas fechando e os manequins eram despedidos. Quando a cidade dormia. Espreitou por entre as pequenas rodas do contentor e viu a rua vazia de novo. Viu o cobertor de gotas a pousar suavemente pelas ruelas e o porto morrer de novo. Ouviu um alarme ao longe a bater pelas janelas fechadas. Saiu debaixo do contentor e sem ver mais nada, correu. Os olhos abertos como faróis, dentes cerrados e as unhas a rasgar o alcatrão. Furou a brisa sem meiguice e correu em busca daquela porta entreaberta. Pelo silêncio do breu ouviu um choro sumido, um timbre familiar, e seguiu-o sem hesitar. Foi dar a uma porta escancarada onde o esperava, do outro lado, o meigo abraço do sabor a casa. Casa. Lar.
Depois do terno abraço familiar, depois de o tremor parar, mas antes de tudo mais, fechou a porta, aquela que nunca fechava. Fechou-a.
Regalou-se com o afago no pêlo e os dedos no pescoço. Deliciou-se com as festas por trás das orelhas e depois de uma lavagem minuciosa e uma bela espreguiçadela, foi-se esconder por baixo dos lençóis aos pés da cama à espera que os corpos se deitassem.
Entendeu que o vidro da janela que dava para o porto não o prendia, mas protegia, e por cada vez que via aquela porta entreaberta, passou a fechá-la.


Moon_T



(imagens pessoais)

domingo, 28 de março de 2010

Vício


Ainda te tenho o cheiro
Como um qualquer perfume caro.
Provo-te nos minutos
Guardados em mim.
Ainda te sinto a pele na ponta dos dedos,
O teu veludo na língua
E no meu peito o teu cetim.
Saboreio-te pelos dias,
Aguardo as noites em que me deito
No leito onde te estiraste
Para poder voltar a cheirar
O perfume que em mim deixaste.


Moon_T

segunda-feira, 22 de março de 2010

filho

Hoje lembrei-me do filho mais velho. Lembrei-me com nostalgia. Como me aquecia, morno. E como ainda me aquece lembrar-me dele. Recordo quando o vi pela primeira vez, tão pequeno. E como o amei desde o inicio. Aquecem-me as memórias das suas brincadeiras desajeitadas, da troca de carinhos, dos nossos arrufos. Aqueço. E depois as minhas ausências. Que tinham de ser, porque a vida assim o exigia. E como a sua mãe me contava o quanto ele me sentia a falta. O quanto ele me queria. Que quase chorava quando eu partia. E nessas alturas, o como eu ficava orgulhoso. Custava, mas ficava orgulhoso de saber que gostava dele como ele gostava de mim. Sabe tão bem sabe-lo. Redimia-me daquelas vezes que lhe ralhava e nos chateávamos, ou mesmo das alturas que não lhe ligava porque não estava para ralhar, só porque não. Na redenção, dava-lhe carícias, e doces, e prendas, mimos gratuitos que sempre tiveram troco. Sempre.
Custou-me quando saí de casa. Custou-me mais ainda quando, saído de casa, o soube doente. Morri mais um pouco quando o quis ver, e por muros e barreiras intransponíveis, levantados pela dor infantil de adultos, não lhe consegui tocar. Nunca mais. Nunca pensei que fosse algo demasiado grave, pois todos sabiam o quanto o gostava e nunca me esconderiam algo relevante. Errado.
Liguei para lhe ouvir a voz. Para falar. Para saber dele. Para ele saber de mim. Sempre quis saber. E sempre nada. Sempre me lembro dele e sempre gosto dele.
Lembro-me de o ver com o mais novo a brincar. Inseparáveis, os rufias. O mais novo, com os dentes tortos desde sempre, com as brincadeiras ruins, a aleijá-lo, e ele nada. Pacifico. Que rufias, os dois.
No natal o telefone tocou. Era grave afinal. Estava doente, dizia ela a chorar. Era grave e nada me disse. E morreu. Morreu. Quis ofendê-la. Queria lhe bater. Não me disse. Não me deixou vê-lo. Nem uma última vez me deixou vê-lo. Nem para me despedir. Nem me despedi. Não o vi pela última vez. Morreu. Morreu e nem o vi pela última vez.
Lembro-me de ti, filho. Não me esqueço. Quero a minha última vez.
Não me esqueço.





Moon_T

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